Mini Tutorial de Vôo VFR

Olá pessoal,

Como surgiram algumas dúvidas em relação ao vôo visual, resolvi escrever este mini-tutorial falando um pouquinho mais sobre essa modalidade de vôo, aprofundando só um pouquinho na regulamentação e nos procedimentos práticos.

Tentarei ser o mais didático possível, pra não confundir (muito) a cabeça de ninguém!

Bem, como já foi dito aqui, o vôo VFR é aquele tipo de vôo onde o piloto se baseia na rota pelo contato visual com o solo, ou seja, é um vôo dependente das condições do tempo.

Pra ser mais exato, a regulamentação determina as condições mínimas para que esse tipo de vôo seja efetuado. Só é permitido o vôo visual se o teto mínimo for de 1500 pés de altura e a visibilidade acima de 5000 metros. Teto é a altura da camada de núvens que cobre no mínimo 50% do céu. É tbm proibido voar abaixo de 1000 pés de altura sobre cidades e locais com aglomerações de pessoas, salvo em operações de pouso e decolagem,claro. É definido tbm que não se pode voar VFR acima do FL150. Como níveis de vôos VFR não são “inteiros” e sim fracionados a 500 pés, podemos dizer que o FL máximo pra se voar VFR é o FL145, ou 14.500 pés. A aeronave tbm não pode exceder os 250 nós de velocidade.

Para quem quiser mais informações sobre a regulamentação, aqui o link do trecho da IMA100/12, o documento que regulamenta o tráfego aéreo: http://www.icea.gov.br/ead/ima100-12intraer/pg53.htm

Agora chega de teoria e vamos à prática!

Uma navegação visual é baseada simplesmente por estimados de tempos de passagem por referências visuais, que podem ser cidades, morros, áreas conhecidas, etc… A principal carta usada nesta navegação é a WAC. Ela é toda feita em escala geográfica, possui as declinações magnéticas das regiões, de forma que vc possa plotar sua rota nela e tirar seu rumo magnético e distâncias.

A rota visual tem de ser a mais reta possível entre a origem-destino e destino-alternativa. Sendo assim, nem sempre a sua rota passará em cima de cidades, e não seria nem um pouco viável fazer uma rota entre uma cidade e outra pra se chegar onde quer, aí um vôo de 1 hora se transformaria em 2… haja combustível, né! Por isso, a maior parte das rotas plotadas nas WAC´s usam referências de través, isto é, sua rota pode passar pelo meio de uma cidade que ficará à esquerda, de outra cidade à direita, e assim sucessivamente. Só tem de prestar atenção às distâncias que estas cidades estarão da sua rota. Não adianta nada tomar como referência uma cidade que estará a 30 quilômetros à sua direita se a visibilidade no local está em 10 quilômetros. Vc vai passar pela referência, não vai enxergar porcaria nenhuma e isso vai fazer vc se perder em todo o cálculo das referências seguintes…. Pois como o pessoal costuma dizer, voar VFR sem GPS e sem auxílios rádionavegação (NDB e VOR), é como diz o velho ditado:
“Tempo é tempo, prôa é prôa e fé é fé”

Abaixo coloquei um exemplo de uma rota visual entre Bauru (SBBU) e Jundiaí (SBJD), na WAC. Vamos ver:

As setas em vermelho são as referências visuais da rota. Primeiramente vc tiraria seu rumo magnético à partir do aeroporto de origem até a cidade de destino. Por que a cidade? Simples, porque é mais fácil vc localizar a cidade que o aeroporto da cidade, principalmente se vc não conhece a região. Em seguida vc tira o rumo do centro da cidade ao aeroporto e saberá para qual setor da cidade deve voar pra alcançar o aeroporto. Acreditem, achar um aeroporto numa cidade não é tão fácil quanto no FS, a não ser que vc conheça muito bem a região! Após tire a distância total do vôo. Consequentemente, com distância e a velocidade vc já terá o estimado de tempo de vôo.
A velocidade usada no planejamento não é a VS ( Velocidade de Solo ), que é a real, pois não tem como saber a ação do vento durante o vôo. Muito menos a VI ( Velocidade Indicada ), do velocímetro. Deve ser usada a VA ( Velocidade Aerodinâmica ), que é a velocidade da aeronave em relação ao ar. Tbm conhecida como TAS, TA. É ela que vc usará nos cálculos.

Agora tire a distância do trecho para cada ponto de referência (na sua rota,não até a referência em si) e o tempo estimado de passagem por cada ponto. É desta forma que será o vôo!

Seria ótimo se não existisse vento, e a VA = VS não é ? Mas na prática o vento está lá, e vc terá que descobrí-lo, tudo baseado no “tempo é tempo, prôa é prôa e fé é fé”. Se vc passar uma referência antes do tempo estimado, opa, vc está com vento de cauda! Se passar atrasado, está com vento de prôa. De qualquer forma, vc já deverá recalcular o próximo estimado pelo tempo de passagem real do anterior, e assim sucessivamente ao longo de toda a rota.
Se era pra vc passar “um pouquinho à direita” da referência mas passou na vertical dela? Está com vento de través direito, corrija a deriva de prôa pra ajustar seu rumo! Passou à esquerda da referência e era pra passar à direita ? Meu amigo, abra a WAC e recalcule seu rumo magnético pra não se perder mais ainda!

E por aí vai…

No exemplo acima,SBBU-SBJD, temos como referências:

Agudos à direita = 10 nm
Lençóis Paulista à direita = 12nm
São Manuel à direita = 15nm
Botucatu à direita = 12nm
Morro Bofete( é um morro mesmo, pertence à cidade de Bofete ) à direita = 17nm
Laranjal à direita = 13nm
Coloquei Sorocaba, que não é visível no .jpg ( e nem no vôo real nesta rota ) só como referência, às vezes é possível avistar, se a visibilidade está ótima.
Itu e Salto à direita e vertical de Indaiatuba = 32nm
Jundiaí = 18nm

E para calcular os tempos ?

Bem, tendo a velocidade do avião e as distâncias que vc plotou na WAC, pra calcular rapidamente basta usar regrinha de 3 simples ( mais simplificada ainda abaixo ). Digamos que a velocidade seja 90 nós, portanto, percorreremos 90 milhas náuticas em 60 minutos, certo ? 1 kt = 1 nm.

Para saber o estimado para Agudos,por exemplo(10nm):

90(distancia percorrida com avião voando a 90kts) ———- 60(minutos)
10(distancia de Bauru até Agudos)——————————— X

60 X 10 = 600 / 90 = 6,6 minutos. Arredondando, 7 minutos.

Pra ficar mais fácil, multiplique sempre a distância por 60 e divida pela velocidade do avião, o resultado é o tempo estimado em minutos.

Se não quiser fazer contas, pode ser usado o Computador Manual de Vôo.

Veja abaixo o dito cujo:

Na escala de fora, branca, será a velocidade do avião. Vc aponta ali a seta preta da escala cinza interna. O medidor móvel ( com a linha verde ) vc gira pra distância que quer saber o tempo(na escala branca de fora), e leia o resultado do tempo na escala interna cinza. O múltiplo da escala, é vc quem faz! Na foto acima, por exemplo, imagine o 12 na escala de fora branca sendo 120 nós. Vc gira o medidor móvel até o 12 na escala branca ( 120 milhas ), o resultado é o tempo na escala cinza interna = 60 minutos. Se quiser trocar o múltiplo, por exemplo, para 12 milhas, o resultado será 6 minutos. Se quiser 1200 milhas, será 600 minutos.

É a mesma coisa que a regrinha de três fez! Só que automático, sem precisar de calculadora,caneta, nada.

Veja outro exemplo, abaixo. É o cálculo da primeira referência ( Agudos ):

Seta preta na velocidade do avião na escala de fora, branca = 90 nós.
Gire o marcador móvel da linha verde até o 10 da escala de fora, branca = 10 milhas
Na escala interna cinza, o tempo = 6,6 minutos. Arredondando = 7 minutos.

O mesmo resultado do cálculo matemático lá em cima.

É isso aí, pessoal !

Achavam que era simplesmente pegar o avião no aeroclube e sair voando? hehehe!

Pode parecer meio complicado num primeiro momento… rapidinho tudo isso fica bem intuitivo, e vc passa a planejar uma rota visual rapidamente.

Pra finalizar, não podemos esquecer da segurança de vôo, portanto, a condição do tempo pode ser sua aliada ou te levar pro buraco! Por isso, é muito importante que antes do vôo vc tenha em mãos mensagens METAR, TAF, SIGMET,SIGWX e cartas de vento ( Winds Aloft ) do máximo de aeroportos e regiões próximas à sua rota, para que não pegue uma condição adversa de surpresa, afinal… voar visual é em condições VMC . Voar “visumento” é dar sorte pro azar!